Stranger Things 5 | Série tem final emocionante sustentado por roteiro conveniente e preguiçoso

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O último episódio da temporada final de Stranger Things entrega exatamente o que a Netflix e os irmãos Duffer pareciam buscar: emoção, nostalgia e uma despedida calorosa para um fenômeno que marcou a cultura pop da última década. A série honra parte de seu legado ao apostar em reencontros, trilha sonora impactante e momentos pensados para apertar o coração de quem acompanhou esse grupo desde o desaparecimento de Will em Hawkins. Ao mesmo tempo, porém, o episódio escancara um problema que atravessa toda a temporada: um roteiro excessivamente conveniente, cheio de atalhos e lacunas que minam o peso dramático de um fim que merecia ser muito mais coeso e corajoso.

Um final emocionante sustentado por conveniências

A primeira metade do episódio funciona bem. A construção de tensão é eficiente, algumas sequências são visualmente belíssimas e o confronto com o Devorador de Mentes, em escala, entrega o espetáculo cinematográfico que se esperava de um “evento final”. Há um claro esforço em fazer o fã sentir que “valeu a espera”, e nisso a temporada cumpre parte de seu papel. O problema é o custo. Quase tudo o que envolve perigo real para o núcleo principal é amortecido por coincidências, soluções fáceis e ameaças que, na prática, não parecem tão letais quanto foram vendidas ao longo dos anos.

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O Devorador de Mentes é o melhor exemplo. Anunciado por temporadas como uma entidade capaz de dominar dimensões, ele acaba reduzido, no clímax, a algo muito próximo de um kaiju: gigantesco, impressionante, mas nem tão inteligente, nem tão inevitável quanto parecia. A batalha é bonita de ver, aquece o coração de quem sonhava com essa escala desde a segunda temporada, mas deixa aquela sensação de que o monstro era mais assustador na promessa do que na execução.

Onze e Vecna: monstros maiores no imaginário do que na tela

A luta entre Onze e Vecna, em paralelo, finalmente coloca a protagonista no centro da narrativa como deveria ter acontecido desde o início da temporada. A cena tem peso, carrega simbolismo e tenta concluir o arco de trauma, culpa e responsabilidade que acompanha a personagem desde o laboratório. Mas, de novo, o antagonista parece mais perigoso na construção do que no resultado. Vecna, que sempre funcionou melhor como uma presença opressiva e quase invencível na mente dos personagens, termina a jornada soando menos ameaçador do que a própria série insistiu em afirmar.

Não ajuda o fato de que momentos anteriores – como a “derrota” para Derek em um cabo de guerra mental – já tenham minado boa parte do temor em torno dele. A imagem de Vecna como vilão supremo do Mundo Invertido perde força quando o roteiro insiste em torná-lo vulnerável em situações quase cômicas. No último episódio, essa fragilidade volta a aparecer, não como nuance trágica, mas como simples descompasso entre discurso e prática: ele é falado como o grande terror, mas raramente age como tal.

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Cadê os Demogorgons no final de Stranger Things?

Se Stranger Things sempre construiu sua mitologia em cima de imagens fortes, poucas são tão icônicas quanto os demogorgons. Eles foram a porta de entrada do público para o horror do Mundo Invertido, a síntese do “monstro no armário” que a série queria atualizar. Na reta final, porém, demogorgons, demodogs e demobats somem de maneira quase anticlimática. Há uma teoria interessante de que essas criaturas teriam se fundido para dar forma física ao Devorador de Mentes, o que fecharia um ciclo simbólico e visual poderoso, mas nada no episódio sustenta essa leitura.

Em vez disso, o que se tem é uma explicação verbalmente preguiçosa: os criadores afirmam que Vecna “não esperava o ataque” na Dimensão X e, por isso, não convocou os monstros, que estariam simplesmente “por aí”. É um desperdício curioso. As criaturas que ajudaram a definir o DNA de Stranger Things, especialmente para quem acompanha desde a primeira temporada, são relegadas à irrelevância no momento em que a série mais precisava delas. Os demodogs, que nessa temporada mal passam de saco de pancada (literalmente, se pensarmos na cena em que Lucas acerta um deles com um chute), e os demobats, introduzidos para viabilizar a morte de Eddie, são abandonados sem cerimônia. Fica a impressão de que o Mundo Invertido, em seu auge, ficou menor.

O sacrifício de Onze e um final ambíguo cheio de furos

O sacrifício de Onze é o momento mais delicado do episódio – e também o mais problemático. A decisão de apostar em um final ambíguo, em que a personagem pode ou não ter morrido, dialoga com o tipo de fantasia que a série sempre flertou: um fechamento emocional, aberto a interpretações e conversas de fã para fã. A fala de Mike, recontando a versão dos acontecimentos para o grupo, reforça essa ambiguidade. O problema é que, em qualquer um dos caminhos, sobram buracos difíceis de ignorar.

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Se aceitarmos que Onze realmente morreu para impedir que seu sangue fosse usado em novos experimentos, surgem duas questões de imediato. Primeiro: isso não garante que os experimentos parem. A própria narrativa já mostrara bebês sendo testados pelos militares – ou seja, o projeto não dependia apenas dela. O sacrifício, então, é bonito em intenção, mas pouco funcional em lógica interna. Segundo: havia dispositivos na saída da fenda do Mundo Invertido destinados a neutralizar os poderes de Onze. Se eles realmente funcionam, como explicar a comunicação telepática dela com Mike para um último adeus? A cena é poderosa emocionalmente, mas descuida da coerência com regras que a própria série estabeleceu.

Se, por outro lado, adotarmos a versão em que Onze sobrevive e toda a experiência de despedida é uma construção mental de Kalli, longe do alcance dos neutralizadores, outro problema aparece: o impacto da cena se esvazia. Não é mais Onze dizendo aquelas palavras, não é o beijo dela, não é o sacrifício dela – é uma simulação. E, em ambos os casos, permanece uma pergunta incômoda: por que os militares simplesmente deixariam todos saírem vivos, ainda mais depois de Hopper e Nancy terem matado tantos agentes e de o grupo ser uma ameaça informacional gigantesca? A ideia de que a morte (ou suposta morte) de Onze seria suficiente para que o governo apenas “liberasse” o restante, como se tudo fosse um acordo tácito de silêncio, soa mais como um atalho conveniente do que como desfecho minimamente plausível.

Personagens abandonados e uma temporada que se apoia demais no afeto do público

Outro sintoma da preguiça narrativa da temporada é o esquecimento de personagens que, por um tempo, foram apresentados como peças importantes. Vickie, por exemplo, praticamente desaparece. A sensação é de que a série criou caminhos emocionais e dramáticos em temporadas anteriores que não tinha disposição de fechar aqui, como se certos arcos tivessem simplesmente “ido de Vasco” na reta final. Isso pesa ainda mais em uma série que sempre se apoiou no carisma do elenco e na multiplicidade de núcleos como motores da história.

Em paralelo, o texto aposta forte em diálogos e monólogos longos, alguns realmente inspirados, outros claramente alongados além do necessário. Há cenas importantes para o desenvolvimento emocional dos personagens, mas posicionadas em momentos em que a trama pedia urgência – como conversas profundas em plena contagem regressiva para o fim do mundo. A justificativa dos Duffer de que não queriam traumatizar o público e que nunca prometeram um banho de sangue até faz sentido em termos de intenção. O problema é que, combinada com um roteiro cheio de conveniências, essa escolha gera um estranhamento: não é a ausência de mortes em massa que incomoda, e sim a forma artificial como o perigo é contornado para que todo mundo chegue relativamente inteiro ao outro lado.

Um fenômeno inesquecível, um último capítulo irregular

Nada disso apaga o que Stranger Things representa. A série redefiniu a presença da Netflix na cultura pop, consagrou um elenco jovem, reaqueceu a nostalgia dos anos 80 e se tornou parte do imaginário coletivo de uma geração inteira. A temporada final se beneficia intensamente desse capital emocional: rever esses personagens, ouvir essas músicas, voltar a Hawkins e ao Mundo Invertido ainda provoca arrepio. Em muitos momentos, a força da conexão que o público construiu com o elenco é suficiente para segurar a experiência, mesmo quando o roteiro patina.

Mas justamente por se tratar de um fenômeno dessa magnitude, o adeus merecia mais rigor. O Volume 2 e, em especial, o último episódio, entregam lágrimas, abraços e imagens bonitas, porém sustentados por uma base frágil, marcada por furos, explicações frouxas e uma confiança talvez excessiva de que o público aceitaria qualquer coisa desde que recebesse seu momento catártico. O resultado é uma temporada final tão emotiva quanto conveniente, tão importante em significado quanto irregular em execução.

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No balanço geral, é uma despedida que emociona, mas não satisfaz plenamente. Fica a memória de uma série gigantesca, que marcou época, ao lado da sensação incômoda de que o roteiro do último capítulo não esteve à altura do mito que Stranger Things se tornou. Nota 7.

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